24 abril 2015

[De: Mamãe] {Para: Bebê}


Me lembro como se fosse hoje, do dia em que recebi a notícia. Estava um lindo dia, os pássaros cantavam alegres na varanda, as flores estavam despontando, exibindo as suas cores vivas, e tudo parecia conspirar para criar uma boa atmosfera. Infelizmente eu não apreciava toda esta vivacidade, acordei com fortes enjoos, que nublavam a minha visão e sentidos. Julgava eu ser uma consequência dos excessos da noite anterior. Sabes, mesmo antes de você nascer seu pai já me mimava com as suas iguarias culinárias. O jantar da véspera foi ligeiramente 'pesado' para aquela hora da madrugada, mas o cheiro estava tão bom, e eu tinha tanta vontade de experimentar...rendi-me.

Não posso dizer que foi uma surpresa inesperada, porque já planejava este acontecimento há muito tempo. Mas, surpresas agradáveis continuam sendo agradáveis, mesmo sendo conhecidas e esperadas. Foi grande o meu contentamento quando as minhas suspeitas foram confirmadas, mais um membro da família estava para chegar! E estava a crescer dentro de mim, tem como imaginar um milagre maior do que o milagre da vida? Você sempre foi o meu sonho, e vê-lo aumentar de tamanho, de uma 'ervilhinha' para uma forma mais definida, me trazia lágrimas aos olhos.

Não sei se você lembra, mas de todas as vezes que o papai tocava a sua música preferida no piano, você dava pontapés, como se estivesse acompanhando o ritmo com seu corpo. Às vezes doía um pouco, mas a dor era logo ofuscada pelo amor infinito que tinha por este ser pequenino que já me amava mesmo sem me conhecer. Antes de dormir, eu lia pequenas histórias infantis, na esperança de que você se aninasse ao som da minha voz. Não acreditava que você entendesse o que eu lia, mas o simples fato de estar falando com você me deixava com voz embargada, e com a certeza de que você me ouvia e se sentia em casa.

Papai também gostava muito de falar com você. Quem via aquele homem de quase 1,90 e uma voz grossa e máscula, nunca imaginaria que ele colocava-se de joelhos e moldava a voz para falar com uma barriga. Você acha divertido? Eu o admirava muito quando fazia isso, demonstrava o grande amor que tinha e tem por nós dois até hoje. Vivia fazendo planos para quando você fosse crescido: que iria aprender a tocar piano, fazer bolos e guloseimas para a mamã, que iria ser muito inteligente e teria sempre boas notas...acho que todos os pais sonham o mesmo. Falava também das brincadeiras que fariam, dos sustos que me pregariam, e você, como se entendesse, dava pequenos pontapés de contentamento.

Vou te revelar um segredo. Seu pai sempre quis mostrar força quando as dores pareciam querer me esmagar. Multiplicava-se em dez, e fazia todos os meus gostos. Chás, compressas, massagens, medicamentos; nada faltava na mesinha de cabeceira. Fui até carregada nos braços para o quarto, quando andar para mim parecia impossível com as contrações! Imagina, estava mais pesada que uma jaqueira em tempo de colheita! Mas ele não reclamava, fazia tudo. Tanto que me foi surpreendente a sua atitude quando finalmente você decidiu nascer.

Tudo parecia estar sob controle...até que 'o sinal' deu luz verde para um novo nascimento. Eu estava relativamente calma, dado o acontecimento. Seu pai era outra história, entrou em parafusos! Veja, ele que era tão calmo, não conseguia pensar com clareza e corria feito barata tonta pela casa sem saber o que fazer em primeiro lugar. Sem assistência, resolvi que o melhor era me despachar sozinha, vesti-me como podia e fui em passo de pinguim para o carro. Papai veio correndo, aparentemente de volta ao planeta terra. Ligou o carro, mas sem controle dos nervos, ainda deixou que alguns 'sopapos' sacudissem todas as nossas entranhas. E você, parecia sorrir, deliciado com a cena familiar hilária.

Quando finalmente chegamos ao hospital, a família em peso parecia ter se mudado para a sala de espera. Tios, tias, avós, primos...todos estavam lá, ansiosos pela tua chegada. Fui prontamente levada para a sala de cirurgias, que logo começou a ser preparada. E então ouviu-se o som da vida. Um choro alto rompeu o silêncio da sala. "Mamãe, este vai ser cantor! Mas que belo menino!". Enrolado em panos, pude enfim ver o teu rosto. Tão pequenino, mas com uma capacidade tão grande de apaixonar quem estivesse perto! Chorei lágrimas de alegria, de alívio e orgulho. Sorri com gosto, "ele tem a minha cor e meus lábios, você me deve um jantar, querido!". Meus dias foram bem mais coloridos depois daquele dia.

Hoje você tem dois anos, e já me pede um irmãozinho. Reine só mais um pouco, depois divirta-se com o desenrolar dos mesmos acontecimentos que anteciparam o seu nascimento. Só que dessa vez você vai poder ver com seus próprios olhos, e poderemos dar umas boas risadas mais tarde. Enquanto isso..."Amorr...é sua vez de trocar a frauda de Pedrinho, acho que ele se emocionou por aqui...".

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